Caderno educativo da exposição
Caderno educativo da exposição
Este material apresenta o Caderno Educativo da exposição “Ciro Fernandes: o menino, o olho e o pássaro”, desenvolvido como parte das ações educativas do projeto. Reúne conteúdos e propostas que ampliam o contato com a trajetória, a obra e os processos de criação do artista, oferecendo referências e possibilidades de diálogo com a xilogravura e com a exposição. O caderno foi pensado especialmente para educadoras e educadores, professoras e professores, estudantes e demais públicos interessados em explorar a obra de Ciro Fernandes antes, durante ou após a visita ao museu.
Amanda Prado
Coordenadora de Ações Educativas
Audiodescrição
A audiodescrição é um recurso de acessibilidade que traduz informações visuais em palavras, descrevendo de forma objetiva e detalhada elementos como formas, cores, composição, personagens, objetos, gestos e características das obras. Em uma exposição de arte, ela é importante porque amplia o acesso de pessoas cegas ou com baixa visão às experiências estéticas e aos conteúdos curatoriais. Nesta exposição o trabalho foi realizado por Amanda Prado, com assessoria e revisão de Allan Machado.
Ciro Fernandes: o menino, o olho e o pássaro - texto curatorial
“Nasci numa rede.”
Suspenso entre o chão e o ar, nasce o olhar do menino.
E o olho do menino cresce se alimentando do mundo,
O olho que vira peixe,
que vira pássaro, que vira cobra
que gira o pião.
Pião que gira mundo, que vira canção.
Olho que espia janela
Que vira e revira
que habita outros mundos,
que casa com a Rita,
que voa em pavão.
Olho só não muda o menino.
A exposição Ciro Fernandes: o menino, o olho e o pássaro traz gravuras do artista paraibano que voou com seus sonhos até o Rio de Janeiro, onde atualmente reside. Acompanhamos o vôo da Uiraúna, pássaro cujo nome deriva do tupi guirá-una, “pássaro preto”, lembrança viva que atravessa sua produção como presença simbólica e memória compartilhada.
As matrizes revelam a dimensão do processo na construção da imagem, como territórios onde o gesto permanece, superfícies de memória onde cada sulco carrega vestígio da ação do corpo.
É nesse ponto que sua presença na 16ª Bienal Internacional de Curitiba se revela: sua obra habita esse espaço entre o gesto e a imagem, entre o corpo e a técnica, entre a memória e sua reinscrição no presente.
Entre a terra e o céu.
Entre a brincadeira e a imagem.
Em um mundo marcado pela aceleração, sua prática opera como desaceleração. Como permanência do gesto. Como insistência do olhar.
A gravura de Ciro Fernandes não é apenas imagem.
É gesto em continuidade.
É matéria em negociação.
É tempo inscrito.
E é, sobretudo, a permanência de um olhar —
um olho que vira,
revira,
e faz o mundo aparecer.
Entre a tradição e a contemporaneidade, entre a brincadeira e o trabalho, entre o humano e o animal, entre a terra e o céu: o pássaro e o olho são o limiar entre mundos, no encontro entre a tecnologia e o fazer manual, entre o corpo do artista e a imagem nos olhos do espectador. O pássaro, como representante do encontro entre os mundos, nos conduz para o mundo de Ciro Fernandes ao mesmo tempo em que nos traz de volta, permitindo que sejamos, como o artista, adulto e criança. E o olho, por fim, como mediador, nos transporta para dentro e para fora, guia o corpo e as mãos que produzem e interagem, ao mesmo tempo em que internalizam as experiências estéticas e conversam com nosso mundo interior.
Iriana Vezzani
Curadora